Finalmente!

Após um ano de pandemia e meio milhão de vidas perdidas, voltamos a ocupar as ruas das grandes cidades. O que explica tamanha demora? Aqui neste blog, tentamos oferecer possíveis respostas, mas certeza, nenhuma. Não é verdade que o brasileiro tenha uma natureza passiva, pois isso não faz sentido. Nossa natureza, se há uma, é a mesma de qualquer outro ser humano no mundo. Mas alguma coisa na atual conjuntura da nossa sociedade fez com que demorássemos tanto a voltar a dar esse passo. Seria uma tendência cultural a suportar mais as injustiças, devida a uma grande difusão entre o povo dos valores das classes dominantes? O torpe trabalho de lideranças oportunistas a influenciar a opinião pública? Precarização da vida e perda de poder de barganha perante a classe proprietária?

Como foram as manifestações em suas cidades? Aqui, devo admitir, me pareceu predominar as categorias que já estavam organizadas. Foi um ato bastante combinado, inclusive com a polícia — testemunhamos organização do ato tentando negociar com a polícia para que a passeata seguisse além do combinado. Combinar ato previamente com a polícia é, infelizmente, de praxe. Entidades organizadoras podem ser processadas caso fujam do riscado. Apesar de tudo isso, alguns dos blocos seguiram independentemente e foi então que aconteceu a mais autêntica expressão de vida até ali:

Vídeo: “Vai morrer!” — Manifestantes jogam bola com cabeça gigante de isopor do Bolsonaro. Crédito: Mídia1508

Vídeo: manifestantes põem fogo em cabeça de Bolsonaro. Crédito: Mídia1508

Boneco do Bolsonaro é queimado na Cinelândia. Crédito: Mídia1508

Nossa esperança é de que os atos continuem e se tornem cada vez mais populares, ou seja, que os mais pobres compareçam mais e mais, e que se tornem revoltas espontâneas da população, pois só esse tipo de acontecimento possui poder transformador. Aqueles que apostam no dirigismo apenas engessam as ações do povo, enquanto a revolta popular não admite cabresto. Ela vem de baixo e da periferia, não do centro e do alto. Esperamos que na sua cidade ou no seu estado já seja assim.

Ficamos ciente da violência policial cometida em Recife. Revolta não tem distância e estamos revoltados por todas as vítimas de lá.

Vídeo: “URGENTE – Neste momento a polícia reprime o ato em Recife. A polícia chefiada Paulo Câmara (PSB) atira bala de borracha contra os manifestantes.” Crédito: Revista Movimento

 

Vídeo: Polícia tenta impedir dispersão de manifestantes e lança spray de pimenta na vereadora do PT Liana Cirne Lins.

 

Vídeo: “É isso que a polícia tá fazendo com os manifestantes do ato Fora Bolsonaro aqui em Recife! Isso é na Guararapes, centro da cidade. Quando tem protesto da direita lá na avenida Boa Viagem, a polícia só falta bater palminha.”

 

Vídeo: “Senhora é atingida pela Polícia Militar de Pernambuco em protesto no centro do Recife.” Crédito: Armando Holanda

 

Vídeo: “Momento em que a PM de Pernambuco ataca manifestantes.”

O que aconteceu em Recife poderia ter acontecido no resto do Brasil — e ainda pode acontecer no futuro. Os policiais há muito tempo não se sentiam tão legitimados a violentar o povo como no regime Bolsonaro. E para quem ainda não estava ciente, algo agora começa a ficar claro: muitos governadores são reféns de suas forças policiais. O governador Paulo Câmara disse ter afastado o comandante e demais policiais envolvidos (afastou mesmo TODOS? Óbvio que não!), mas nós sabemos que sempre que políciais com cargo de chefia caem, caem para cima (mais exemplos de como a gravidade funciona invertida para a polícia aqui). A violência de hoje não foi fora do padrão, mas apenas teve mais projeção do que em dias comuns. Se a ordem não partiu do governador, então ele não tem controle da polícia de seu estado e se ela sempre foi violenta, então ele nunca teve controle.

Conforme a revolta do povo crescer, mais e mais crescerá a violência da polícia. Porém se quisermos dar um basta nessa polícia, não há caminho fácil. As castas dominantes e seus capatazes terão de aprender da forma mais clara possível que com o povo não se tripudia. Avante!

Imagens do ato em São Paulo:

Frente Estadual pelo Desencarceramento de São Paulo

Como o centro nos joga cada vez mais para a extrema-direita – e qual a responsabilidade do PT nisso?

O deslocamento da janela do discurso e das práticas aceitáveis para a direita inviabiliza a possibilidade de implementação de políticas e ações verdadeiramente de esquerda.
Por Admin

 

Crédito: Rafael Daguerre, Mídia1508

Crédito: Rafael Daguerre, Mídia1508

Esquerda e direita são termos que usamos para situar as posturas e ideias de indivíduos ou grupos de indivíduos dentro do espectro da política. A utilidade desse modelo, porém, é limitada, revelando muitas vezes contradições. A despeito disso, o modelo parece funcionar quando observamos o deslocamento do discurso publicamente aceitável. Podemos imaginar uma janela em torno de um conjunto de ideias políticas que seriam as mais aceitas num determinado momento e local histórico. Quanto mais longe desse centro uma ideia está, menos aceita ela é. Basicamente, me refiro a quão provável ou improvável seria o consenso em torno de determinadas ideias políticas. Mas por que eu digo que o modelo esquerda/direita parece funcionar nesse caso? Porque o chamado centro, onde estariam os moderados, parece nos arrastar em linha reta cada vez mais para o fascismo!

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Precisamos mudar nossos discursos

Por Admin

Discurso – subst. masc., Linguística, uso real da língua por um indivíduo, numa determinada situação; Filosofia, forma de conhecimento baseada no raciocínio.

Crédito: Tom Phillips

Dia 6 de maio de 2021. A polícia carioca comete a maior chacina da história da cidade, deixando 29 mortos no Jacarezinho, com todos os indícios de execuções sumárias, em cerca de três horas de operação. Até mesmo dentro de vagão do metrô, que por ali passa, houve vítimas. Como o advogado Joel Luiz Costa e o jornalista Jeff Nascimento relataram (confira extenso tópico aqui), casas foram invadidas e pessoas foram mortas tentando fugir ou se render. A cena do crime foi alterada pelos policiais (ver notícia da jornalista Renata Neder). Caso queira ler sobre a fragilidade das evidências anexadas às denúncias, clique aqui. Não desejo focar nas tecnicalidades legais, pois não deveria importar discutir o assunto sob a luz das leis. Se as leis permitissem tal coisa, seriam leis bárbaras. E se elas não permitem, como é o caso, não é por causa das leis que abominamos a chacina. Abominamos a chacina com leis ou sem leis.

Estive em atos de protesto contra a chacina. Ouvi discursos e entrevistas. Conversei com algumas pessoas. É verdade que estamos todos muito abalados, mas há algo mais que me preocupa. Anteriormente, escrevi um texto sobre como o brasileiro tem sido passivo diante da violência que sofre nas mãos do estado e como as ideias de Mikhail Bakunin nos ajudam a perceber que falta ao povo a noção de que somos todos possuidores de direitos inalienáveis – ou se tal noção não falta, então o que falta é que a levemos realmente a sério. Tendo isso em mente, eu acredito que nossos valores e nossos discursos precisam mudar. Nosso repertório conceitual está sendo pautado por aqueles que nos destroem. Nós falamos o linguajar do estado, da polícia, mas nossos direitos e anseios não cabem nesse linguajar.

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