Por que não há hoje uma revolta generalizada no Brasil?

Por Admin

O que faz com que o Brasil não tenha, hoje, uma insurreição, com um número de mortes por covid indo para a casa dos 400 mil? A brutalidade das nossas polícias pode ser apontadas como causa para isso? Por um lado, não creio, pois o resto da América Latina se insurge. Os EUA se insurgem. Myanmar se insurge. Até na China há levantes. Mas é fato que a polícia brasileira é a que mais mata no mundo em números absolutos e a nona mais letal, proporcionalmente falando. Porém acredito que se fôssemos mais dispostos à revolta generalizada, a polícia não agiria com tamanha liberdade. Buscarei em Mikhail Bakunin a possível resposta para isso.

 

Mikhail Bakunin

O sofrimento puro e simples não é suficiente para uma revolta. As pessoas podem se resignar em suas situações e morrer nela, pouco reclamando. O que faz com que elas enfrentem seus opressores é a convicção de que elas possuem certos direitos pelo simples fato de serem seres humanos vivos e que tais direitos estão sendo violados. A partir do momento que elas tomam noção de que lhes é tirado algo que não deveria ser, elas se revoltam, mas não antes. E são as pessoas que menos possuem as mais predispostas a se revoltarem, pois são as que menos tem a perder. Quanto mais o indivíduo possui materialmente, menos ele estará disposto a se arriscar.

Qual é a forma mais comum de revolta vista no Brasil? É quando a favela desce para fechar o asfalto, após um dos seus ser morto pela polícia. Nesse momento, o pobre vê que a única coisa que lhe resta, ou seja, o direito à própria vida, não é respeitado. Mas sabemos também que as populações pobres prezam muito o respeito, abominando aquilo que é popularmente chamado de “esculacho”. Por que então não há igual revolta quando a polícia dá tapa na cara de pobre ou joga a tia idosa no chão? É muito complicado responder a isso de forma meramente especulativa, mas creio que aqui, começamos a cruzar a trilhar o território da “meritocracia”, ou seja, a ideia de que certos direitos não seriam universais, mas merecidos por meio de outra coisa. Quando você nasce pobre, a medida do mérito é o esforço. Quando você nasce rico, o mérito vem de berço.

O Liberalismo que orienta nossas classes dominantes, especificamente de vertente conservadora, impede que o povo expanda a consciência de seus próprios direitos. Fomos educados desde cedo para o valor do empreendedorismo capitalista, embora não possuamos capital para empreender. Se alguém tem menos direitos do que outros, isso se daria por ela não ter empreendido, ou seja, teria sido falta de esforço individual. Vendo as coisas dessa forma, abuso e violência passam a ser entendidos como um direito que o opressor teria sobre o oprimido. O oprimido só se veria livre do abuso quando conquistasse seus direitos por meio do esforço individual. Mas enquanto isso, ele precisa batalhar para ter tal direito ao mesmo tempo que é atrapalhado pelo opressor.

Se o Liberalismo serviu, na Revolução Francesa, para abolir castas, aqui ele serve para perpetuar a lógica escravocrata dos períodos colonial e imperial. Sob a desculpa de que todos já são beneficiados pelas formalidades do estado de direito democrático, as relações de dominação se mantêm, já que não importa muita coisa se a lei diz que todos somos igual, quando a maioria das pessoas não possuem as mesmas oportunidades iniciais de uma minoria privilegiada. Mesmo que um ou outro indivíduo consiga sair da pobreza e atingir a riqueza, a ordem vigente significa que uma mesma classe de pessoas continuará existindo para trabalhar para manter os privilégios de uma mesma minoria de pessoas, pouco importando o que faça para mudar tal realidade.

A religião é outro elemento que legitima abusos. Apesar de muitos religiosos realizarem trabalhos genuinamente bem-intencionados e com resultados reais, não se pode negar o quão frequentemente o discurso religioso é usado para legitimar as relações de opressão. A salvação é tida como um troféu a ser entregue no final de uma prova de muito sofrimento. Revoltar-se contra o sofrimento é abdicar do troféu.

Trem pegando fogo

Trem pegando fogo

Mesmo com os valores capitalistas e religiosos, ainda assim o pobre se revolta, pois para operar dentro desse sistema, uma mínima condição é exigida e se tal condição não for respeitada, o trabalhador pobre se percebe como roubado, frustrado em suas expectativas mais básicas. E tal insatisfação é expressada de forma muito mais contundente do que se fosse a classe média insatisfeita. Por que o pobre é mais disposto a virar vagões de trem ou queimar ônibus quando sua ida ao trabalho é atrapalhada, se são esses justamente seus meios de transporte para o trabalho? Porque o salário de miséria que ele ganha é quase nada perto do trabalho que o patrão lhe explora. Para a classe média, é muito mais difícil destruir propriedade pública ou privada, pois quanto mais dinheiro o sujeito tem, mais ele se beneficia da infraestrutura da sociedade, da circulação de pessoas e bens que tal infraestrutura permite. Quanto mais gente abastada houver numa manifestação, maiores serão as chances de se ouvir apelos por calma e para que o patrimônio não seja danificado. Em diametral contraste, quando um aspecto da infraestrutura pública serve ao bem-estar do trabalhador pobre, como um hospital público, por exemplo, aí são os mais ricos que gostariam que tal coisa deixasse de existir e fosse substituída por um serviço privado, pago e caro, pois nossa burguesia é muito ignorante para perceber que o bem-estar das pessoas que trabalham para ela também a beneficia.

Concluo, portanto, e em total acordo com as ideias de Mikhail Bakunin, que a miséria e os abusos não bastam para que o pobre, como uma classe, se levante numa grande insurreição e que é também necessária a noção total de que todos somos merecedores de direitos simplesmente por estarmos vivos e sermos igualmente dotados de necessidades e expectativas; que a relativa passividade do brasileiro se dá por quão arraigados são os valores contrários à consciência desses direitos universais; e que os despossuídos são muito mais predispostos a essa rebelião do que aqueles que mais se beneficiam pela manutenção das coisas do jeito que elas já são. Há, porém, uma possível objeção à conclusão: grandes levantes seriam mais comuns em períodos de crescimento econômico do que nos de recessão. E se isso for verdade, seria uma contradição à ideia de que quanto mais pobres são as pessoas, maior a inclinação delas para a rebelião? Não tenho como ver se tal afirmação é verdadeira ou não, mas mesmo que seja (e eu acredito que sim: nosso último levante generalizado foi justamente num momento economicamente melhor), insisto em dizer que ela não contradiz minha conclusão. Mesmo que a sociedade como um todo se torne mais rica, ainda são os mais pobres aqueles que mais estarão disposto a se rebelar. O que ocorre nesses casos é que, com as melhores condições de vida, se espalha mais facilmente a ideia de que todos nós possuímos direitos inalienáveis e então vemos como ainda falta muito para que tais direitos sejam integralmente respeitados.