ATUALIZAÇÃO URGENTE, mesmo dia, 23:37: Demorou apenas cerca de cinco horas para que toda a análise aqui publicada se tornasse realidade, com o partido UP do Rio de Janeiro agredindo indígenas e anarquistas e fazendo com que o restante dos blocos isolassem-nos, expondo-os ao perigo da repressão policial e monitoramento. No fim do ato, repressão policial violenta e cinco detidos, a maioria “de gaiato”, apenas por participarem do bloco autônomo, incluindo gente já visada arbitrariamente de outros atos. Só duas pessoas parecem ter tido problemas maiores com a polícia, como espancamento, acusações e confisco arbitrário de bens. Os outros blocos nem ao menos esboçaram apoiar ou proteger as vítimas da repressão policial. Mais informações serão dadas em breve. Nós não somos MESMO como eles!
Uma nova onda de criminalização se inicia e o estado aumenta a perseguição a manifestantes. O princípio disso não tão é recente assim, claro. Rodrigo Pilha, do PT, foi preso em março, só sendo solto dia 10 de julho, apenas por chamar o presidente responsável por, até agora, pelo menos 534,2 mil mortes de genocida. Hoje, Matheus Machado Xavier segue preso após ser visto com o capacete de um segurança do metrô durante uma manifestação em São Paulo no dia 3 desse mês.
Junto a isso, o farsesco processo contra os 23 ativistas de 2014, que completou 7 anos ontem, continua. A condenação em 1ª instância, que fora previamente anulada por ser absurda, foi dessa vez enviada à 2ª instância. Se tal criminalização ocorreu num governo dito progressista, num governo neofascista, devemos nos preparar para o pior. A despeito da imagem caricata de inépcia criada pela propaganda governamental para si mesmo, não podemos duvidar que ele se empenhará em seus intentos. As polícias locais, uma das maiores bases políticas do bolsonarismo, não esquece facilmente seus oponentes. Nas manifestações contra o governo, o bloco autônomo é sempre o mais vigiado e considerando quão “chapa branca” têm sido as manifestações, não é incorreto afirmar que a PM chega à paranoia para não estragar esse arranjo tão cômodo para ela mesma.

Nesses últimos 10 dias, tem rodado pela internet imagens de um manifestante vestido estilo black bloc depredando uma agência bancária do Santander. Tanto os militantes de partidos da esquerda quanto diretor da Globo popularizaram uma narrativa que busca explicar se tratar de um agente infiltrado da polícia para criminalizar as manifestações. O famoso agente provocador ou P2. As supostas evidências são analisadas por Rafael Daguerre no site Mídia 1508. Boato semelhante fora dito quando começaram protestos nos EUA contra a morte de George Floyd, numa tentativa de ora defender os protestos de quem não se agrada de delegacias incendiadas, ora para deslegitimá-los como irresponsáveis. Concordo com Daguerre: pouco importa se o sujeito era um P2 ou não. A vergonha será se o estado tiver dado início à verdadeira rebelião contra si mesmo em vez do próprio povo.

“A esquerda institucional nada mais é que uma direita envergonhada.” — Subcomandante Marcos, EZLN
Esse povo que o Subcomandante Marcos chamou de “uma direita envergonhada” aproveitou tal deixa para criminalizar tudo aquilo que eles antes achavam bonito quando acontecia no estrangeiro. Com P2 ou sem P2, a esquerda institucional vai se colocar contra quem atenta contra o patrimônio, privado ou público. Mais de meio milhão de mortes e essa ex-querda se preocupa com a santidade do capital tanto quanto as forças da reação. Era para ser o pior momento para Bolsonaro, mas ele pode reclamar? Ativistas veteranos seguem para uma nova fase de perseguição política, o seguimento da esquerda radical, ao qual pertencem, segue sendo o mais vigiado. E havendo a possibilidade do governo ter tomado uma ação ilegal para criminalizar esse mesmo seguimento, o que a esquerda institucional faz? Só falta prometer entregar suas cabeças numa bandeja de prata.
Mais de meio milhão de mortes e a revolta segue sob rédeas, não do governo vigente, mas dos partidos de esquerda, que não desejam melindrar a ordem, visando as eleições de 2022. Que mais meio milhão morra para que Lula tenha seu palco. O povo que desfila (sim, pois não são protestos de verdade) nas ruas segue sendo enganado sobre a possibilidade de Bolsonaro sofrer um impeachment caso a base eleitoral de esquerda atinja determinada quilometragem nas avenidas. A única coisa que esses desfiles chapa branca demonstram é que Bolsonaro não tem nada a temer. Por que Lula não oferece endosso incontestemente público à causa do impeachment? Porque sem Bolsonaro na disputa eleitoral, o eleitorado não precisa buscar um herói contra o vilão e se sentirá livre para votar em qualquer outro candidato*. Se eu acho que Lula pode ganhar uma eleição que não seja bipolarizada entre ele e Bolsonaro? Sim, com certeza, mas se considerarmos apenas as eleições como fim, não seria estritamente racional preferir um cenário menos favorável do que o mais favorável possível. Porém nosso fim não são as eleições, mas a sobrevivência.
Não devemos confundir a militância e as lideranças partidárias com o restante do eleitorado, majoritariamente formado por trabalhadores tentando sobreviver da melhor maneira que encontram, inclusive empenhando sua fé em candidatos políticos. Porém devemos traçar uma linha entre nós, a esquerda radical, que não compromete seus princípios e fins, e a esquerda institucional, que é apenas mais uma das correntes concorrentes a realizar seus projetos de poder político. Muitas vezes, esses sujeitos, o trabalhador que vota e o militante partidário, estão fundidos num só, mas temos de separar a pessoa das ideias.
Se ocupamos alguns espaços em comum, é porque queremos falar, por vezes, às mesmas pessoas; a diferença está entre o que queremos falar. Se nós fossemos como o PT e tivéssemos sob nosso poder (o que nunca ocorreria, pois o poder vertical nos descaracterizaria) a maior central sindical do país, já teríamos realizado uma greve geral por tempo indeterminado sem igual para proteger a saúde e a segurança dos trabalhadores, cuidando todos uns dos outros. É vergonhoso que até agora tal coisa não tenha sido realizada. O prejuízo que isso causa para a consciência política popular, junto à narrativa da mídia conservadora de que o mais importante para uma sociedade é que sua economia de mercado evite sempre recessões, é incalculável! Uma das armas do povo é parar a produção e os serviços, colocando a classe dominante como refém, mas a própria esquerda evita tal coisa, reverberando a educação liberal, que diz que greve é coisa de vagabundo e só o trabalho estoico enobrece! Não podemos parar de produzir capital! Não podemos danificar o capital! Quem é essa esquerda!? Seria ela a direita!?
Tomando o cuidado necessário para não alienar setores da população trabalhadora, precisamos, de uma vez por todas, negar e fazer jus a tal negação: não, nós não somos como eles!
André de Paula — Análise de conjuntura: Preparar a greve geral
* Outra razão para Lula não ser enfaticamente a favor do impeachment é porque ele precisa demonstrar ao capital estar de acordo com a ordem institucional republicana e ser capaz de conter a insatisfação popular. O PT perdeu o poder justamente quando se mostrou incapaz de conter o povo. Ele entende que precisa demonstrar ser capaz de reassumir tal papel. Então se coloca como paladino da república iluminista justamente quando esta demonstra não estar nem aí para as leis que ela mesma cria. O que é a esquerda partidária senão aquela criança que, brincando com certas más companhias, apanha e é judiada, só para voltar no dia seguinte para brincar com esses mesmos valentões, acreditando que hoje será diferente?
É verdade que, nesses últimos dias, Lula aventou a possibilidade do impeachment, embora timidamente, pois pouco sentido faria permanecer dando sinais contraditórios (ter sua imagem associada a manifestações pró-impeachment enquanto se posiciona contra). Em algum momento, ele precisará ir ao encontro de sua base, embora isso não signifique que Bolsonaro vá cair se a pressão apenas se mantiver nesse mesmo nível. Bolsonaro só cairá caso a situação se torne insustentavel econômica e institucionalmente.
Mais uma das vantagem da democracia liberal para a classe dominante: mate meio milhão de pessoas e a solução que se oferece é o fim do termo de quatro anos. Revolução feita nas urnas não tem rei decapitado.
Nota: atualização feita apenas para melhorar redação e reestabelecer um link às 14:59 do mesmo dia.