Por Admin
Quando eu era criança, uma professora de história falou algo sobre Rousseau. Se bem me lembro, ela disse algo sobre como o autor considerava a propriedade privada algo errado, mas impossível de se voltar atrás nessa altura da civilização. Desde então, tenho essa imagem na cabeça do primeiro sujeito que cercou um pedaço de terra e disse que era dele. Que direito ele tinha de impedir que as pessoas plantassem ali, que bebessem da água dali? Foi assim que me tornei contrário à propriedade privada.
Hoje em dia, me sinto frustrado ao ver que pouca gente por aqui questiona a legitimidade da propriedade privada. Mesmo na dita esquerda, a coisa vai mal. Guilherme Boulos fez propaganda eleitoral dizendo que respeita o direito de uma pessoa ter vários imóveis com o objetivo de alugá-los. Marcelo Adnet, ao se declarar de esquerda, sentiu a necessidade de esclarecer o quão inócuo ele mesmo era, assegurando não querer acabar com a propriedade privada. Para mim é muito triste que toda uma geração de pessoas aceite que uma parte da sociedade possa continuar acumulando tudo de bom para si, enquanto deixa o resto passar necessidade. Da parte do cidadão médio, há o equívoco comum de que o fim da propriedade privada significa que ele perderia sua casinha. Compreensível, mas não menos um equívoco. Quem nos confere propriedade de algo é o estado. Quando alguém que faz sua casa num terreno do qual ela não é reconhecida pelo estado como proprietária, essa casa é chamada de posse. Num mundo sem propriedade privada, todos seriam posseiros. Posse é o uso que se faz de algo durante o período de tempo em que esse uso é feito. Digamos que você tenha a posse dessa casa, mas resolve se mudar para outra cidade, deixando essa casa para trás. Ela ficaria vaga e qualquer outra pessoa poderia tomar posse dela, sem deixar que ela permaneça abandonada. Hoje em dia, um proprietário que abandona seu imóvel e nem mesmo paga os respectivos impostos pode entrar na justiça para impedir que pessoas em situação de desabrigo deem uma finalidade útil a esse imóvel.
No Brasil, especulação imobiliária é muito bem aceita. Ninguém parece achar errado ou imoral tal coisa. E o que é especulação imobiliária? É comprar imóveis, na expectativa de lucrar com eles, seja através da venda ou do aluguel. Muito comumente, uma mesma pessoa, já tendo onde morar, acumula mais imóveis para cobrar aluguel de quem queira morar neles. O importante nessa situação é que a maioria das pessoas não consiga comprar sua casa própria e seja obrigada pelas circunstâncias a pagar aluguel. Uma pessoa sozinha tem várias casas e várias pessoas não têm nenhuma casa. E a pessoa que tem várias casas ganha dinheiro todo mês sem fazer nada, só porque é a proprietária das casas alugadas. O sonho de muitos pobres é comprar imóveis para alugar e viver de renda. Se olharmos as celebridades que o povo adora, perceberemos que elas geralmente fazem isso. Parece até que essa gente lutou muito na vida para comprar tais imóveis e alugá-los, mas a verdade é que a maioria das pessoas que fazem isso já nasceu com dinheiro. Se alguém nasceu com muito dinheiro, é mais provável que os pais dessa pessoa também tenham nascido ricas e assim sucessivamente. Vez ou outra, um pobre fica rico, mas as grandes fortunas passam gerações circulando através da mesma classe de gente rica.
E aqui reside o pulo do gato que a maioria das pessoas não percebe. Todas essas grandes propriedades de hoje em dia remetem ao primeiro sujeito que cercou um pedaço de terra e disse “É meu! Saiam daqui!”. Os primeiros grandes proprietários cercaram a terra, deixando o resto da população sem ter onde plantar, de onde extrair os metais, etc. Por essa circunstância, as pessoas foram obrigadas a trabalhar para os grandes proprietários. As fábricas, os edifícios, os navios e etc. de hoje em dia remetem a esses primeiros cercamentos de terra, pois é da terra que se extrai a matéria-prima para se fazer tudo. O que foi comprado posteriormente, foi com o ouro e o ferro tirado daquelas terras. E cada vez que alguém conquistava mais terras na base da força, essas terras posteriormente eram vendidas para os descendentes ricos dos velhos conquistadores. E se, mais tarde, um trabalhador pobre tenha se tornado rico, o que é menos comum do que um rico já nascer na riqueza, isso se deu de uma das duas formas: ou ele explorou desavergonhadamente os seus semelhantes, ou foi recompensado pelos mais ricos por servir aos seus interesses. Sejamos francos: dificilmente as duas coisas ocorrem separadamente.
Cada dia mais as pessoas parecem crer que podem chegar à riqueza apenas com seus próprios esforços e muito pensamento positivo. É a era do empreendedorismo. Só que, convenientemente, esqueceram de informar o povo de que mesmo entre os ricos, a falência é o destino mais comum dos novos empreendimentos. Manter um negócio de sucesso não é simplesmente questão de empenho, mas principalmente de sorte. Nada garante que um novo produto não vai encalhar nas prateleiras das lojas e é por isso que as grandes marcas investem tanto em propaganda. O objetivo delas não é criar uma coisa da qual as pessoas vão precisar, mas convencer o maior número de pessoas de que elas precisam comprar tal produto. A maioria das pessoas não possue dinheiro para investir em novos negócios sem correr o risco de passar forme caso o negócio não dê certo. E além disso, se cada um iniciasse um novo negócio, haveria uma redundância enorme de serviços: para que uma mesma sociedade precisaria de cem mil novas lojinhas, todas vendendo a mesma coisa? É óbvio que a maioria dessas lojas faliria, só sobrando meia dúzia. Então essa ideia de que cada um deve ser seu próprio patrão, dentro de uma economia de mercado, não se sustenta. O resultado de insistirmos nisso é que aumenta-se o número de atravessadores entre o produto e o consumidor, elevando artificial e desnecessariamente o custo final.
Enquanto o pobre acredita que é preciso trabalho duro para chegar à riqueza, manter a riqueza não tem nada a ver com trabalhar – pelo menos não para o proprietário da riqueza. “Não existe almoço grátis” é uma frase que os defensores do capitalismo adoram repetir, mas não deveriam. Eles querem dizer que tudo sempre tem um custo: se não é para quem almoça, é para outra pessoa. O problema não é que essa frase seja falsa, porque ela não é. O problema é que a atividade do capitalista (o grande dono de propriedades) é justamente ganhar dinheiro com o trabalho alheio. É bastante óbvio que o dono de indústrias não pega no pesado, pois quem o faz é seus operários. Mas a isso soma-se o rentismo, ou seja, a especulação no mercado financeiro. E o que é isso? É comprar ações, esperando vendê-las quando estiverem valendo mais. Quando muitos investidores se convencem de que determinada ação vai valorizar, eles passam a comprá-la e esse movimento de procura acaba justamente por valorizá-la. Então mais gente ainda passa a comprá-la, elevando ainda mais o preço, até que é melhor vendê-la antes que ela desvalorize e o investidor caia em prejuízo. É claro que tais movimentos de valorização e desvalorização podem ser provocados artificialmente e de modos bem pouco honestos. Mas então, se “não existe almoço grátis”, de onde vem esse dinheiro? Como é que uma ação passa a valer muito do nada? Simplesmente alguém diz “esse papel aqui, a partir de agora, equivale a muito dinheiro!” e as pessoas compram tal papel? Isso não é justamente dinheiro sendo feito do nada? A troco de nada? Pois é, é justamente essa a malandragem: os ricos brincam de cassino na bolsa, criando valor onde não existe, e depois você, empregado deles, rala feito condenado para preencher esse valor; do contrário toda economia entra em colapso.