Como o centro nos joga cada vez mais para a extrema-direita – e qual a responsabilidade do PT nisso?

O deslocamento da janela do discurso e das práticas aceitáveis para a direita inviabiliza a possibilidade de implementação de políticas e ações verdadeiramente de esquerda.
Por Admin

 

Crédito: Rafael Daguerre, Mídia1508

Crédito: Rafael Daguerre, Mídia1508

Esquerda e direita são termos que usamos para situar as posturas e ideias de indivíduos ou grupos de indivíduos dentro do espectro da política. A utilidade desse modelo, porém, é limitada, revelando muitas vezes contradições. A despeito disso, o modelo parece funcionar quando observamos o deslocamento do discurso publicamente aceitável. Podemos imaginar uma janela em torno de um conjunto de ideias políticas que seriam as mais aceitas num determinado momento e local histórico. Quanto mais longe desse centro uma ideia está, menos aceita ela é. Basicamente, me refiro a quão provável ou improvável seria o consenso em torno de determinadas ideias políticas. Mas por que eu digo que o modelo esquerda/direita parece funcionar nesse caso? Porque o chamado centro, onde estariam os moderados, parece nos arrastar em linha reta cada vez mais para o fascismo!

Não é segredo para ninguém que boa parte da elite brasileira tem pavor do comunismo como se ainda estivéssemos na Guerra Fria, ao ponto de quererem livrar o Brasil de tudo o que for ‘de esquerda’. Mesmo que essa esquerda seja o mais brando estado de bem-estar social, ela enxerga nele “a dominação socialista”. Foi assim que essa parte da elite econômica nacional se aliou a Bolsonaro. Embora essa gente possa ser facilmente classificada como direita ou extrema-direita, Bolsonaro também recebeu apoio de centristas por dois motivos: a presença de Paulo Guedes, educado na Escola de Economia de Chicago, berço do neoliberalismo; e a ojeriza ao PT. Com o desastre que o governo Bolsonaro se tornou (quem poderia prever, não é mesmo?…), era de se imaginar que personalidades de centro se alinhariam mais à esquerda que o de costume, mas o que se vê são ataques à esquerda mesmo quando uma forte guinada à direita se mostrou desastrosa – aliás, justamente talvez por isso. Com esse desastre, os nossos centristas temem que a esquerda seja enxergada pelo povo como uma saída. Dessa forma, é importante para eles invalidar essa alternativa. Como exemplo, temos Marcelo Tas não aceitando que seu entrevistado se declare como esquerdista e o espaço que a grande imprensa dá para as articulações de alternativas eleitorais de centro, possivelmente uma aliança.

Curiosamente, as alternativas de centro parecem bem mais à direita de onde um centro deveria estar. Temos Tasso Jereissati pelo PSDB, o ex-ministro de Bolsonaro Luiz Henrique Mandetta, e o tragicômico Michel Temer. Há uma articulação que parece ser mais à esquerda, que é a do PV com Luciano Huck, Mandetta e Ciro Gomes. Uma análise de dois segundos é o suficiente para desfazer tal impressão: PV não passa de um PSDB envergonhado, Huck declarou publicamente voto em Bolsonaro no segundo turno e Ciro, que hoje faz cosplay de centro-esquerda, entrou na política pelo PDS (partido sucessor do ARENA) depois de atuar no movimento estudantil a favor da anistia a torturadores, afirmando não haver provas dos crimes de repressão. Há, claro, exceções – inclusive curiosas, como o apoio de Fernando Henrique Cardoso à candidatura de Lula. O Estadão publica quase mensalmente editoriais atacando a candidatura de Lula como uma imoralidade, mas FHC sempre foi bem-vindo nos jornalões brasileiros, inclusive no Estadão. Aparentemente, os chefes do Estadão não acham imoral FHC ter comprado votos pelo direito à reeleição…

No mais, nosso centro-com-cara-de-direita demonstra, no dia a dia, estar alinhado aos expedientes mais reacionários. Por exemplo, o Tripa Advisor*, Joel Pinheiro, disse que acha ofensivo chamar a chacina de quase 30 pessoas na Favela do Jacarezinho de chacina. Como então devemos chamar a execução sumária de quase 30 pessoas? A defesa da violência do estado contra os mais pobres é um ponto de interseção comum entre o liberalismo conservador e a extrema-direita. O Partido Novo, apesar de querer emplacar como partido de centro, tem uma taxa de alinhamento com o governo Bolsonaro de mais de 90% no câmara dos deputados. Um de seus fundadores, Roberto Motta, deixou o partido insatisfeito e defende chacina em favela da mesma forma que defende a limpeza étnica contra palestinos perpetrada pelo estado de Israel.

Ato independente em frente ao Palácio Guanabara, RJ.

Ato independente em frente ao Palácio Guanabara, RJ. Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência.

Ato independente em frente ao Palácio Guanabara, RJ, com presença de mães de vítimas da violência estatal e Frente Internacionalista dos Sem Teto.

Ato independente em frente ao Palácio Guanabara, RJ, com presença de mães de vítimas da violência estatal e Frente Internacionalista dos Sem Teto.

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas se o deslizamento da janela de discursos aceitáveis leva o centro para a direita, ela também arrasta a esquerda na mesma direção. E parte da culpa é da própria esquerda, que se curva às demandas do que se convencionou chamar de ‘centro’ nos dias de hoje. Isso acontece porque essa esquerda tem como objetivo a vitória eleitoral – embora digam que tal vitória é necessária para mudar a realidade, a prática mostra que ocupar-se com o eleitoralismo consome os recursos, o tempo e os esforços que poderiam ser aplicados ao trabalho de base, a articulação de redes de apoio mútuo e a ação direta**, atividades que são atacadas pela mídia hegemônica por baterem de frente com os interesses da burguesia no controle social. Podemos concluir, portanto, que a esquerda eleitoral se afasta do trabalho de base tanto para concentrar-se nas eleições como para não prejudicar sua imagem na mídia e manter sua viabilidade eleitoral. Hoje, com um governo de extrema-direita, que recusou ofertas de vacinas contra COVID-19, com cerca de meio milhão de mortes pela doença e a maior chacina da história do Rio de Janeiro cometida pela polícia um dia após a reunião entre Bolsonaro e o governador Cláudio Castro, não vemos chamados de greve geral nem revoltas generalizadas. Só agora, depois de um lamentável atraso, vemos o esboço de uma volta às ruas, ainda sem nenhum indicativo de radicalização por parte de partidos e centrais sindicais, que se comportam nos atos como se estivessem em comícios eleitorais. Particularmente na cidade do Rio de Janeiro, os discursos reivindicam as mesmas pautas eleitorais de políticas de inserção na ordem vigente, ignorando a contradição que é reivindicar algo para uma classe dominante que não deseja conceder. Esses mesmos partidos, porém, enviam para essas manifestações apenas sua militância estudantil – seus soldados rasos –, além de alguns políticos com mandatos para ocupar os carros de som, quando poderiam muito bem fazer uma metrópole inteira parar, caso convocassem e acompanhassem toda sua base.

Juventude do PSoL em ato no Rio de Janeiro, crédito: Herculano Barreto Filho/UOL

Juventude do PSoL em ato no Rio de Janeiro, crédito: Herculano Barreto Filho/UOL

Precisamos lembrar que o PT e a CUT fizeram parte do coro e da repressão contra a última grande onda de rebelião generalizada no Brasil, mesmo que marcasse presença nesses mesmos atos. Tomando como molde a repressão a manifestantes em 2013 e 2014, incluindo processos persecutórios eivados de irregularidades, Dilma Rousseff sancionou a lei antiterrorismo, última lei sancionada por ela antes de sofrer o impeachment. Lula até hoje sustenta um discurso que diz que 2013 foi o início do golpe contra Dilma, que todas aquelas manifestações contra os mega eventos e as expropriações sofridas por pobres e indígenas em nome da indústria imobiliária foram apoiadas pela mídia e promovidas por grupos reacionários – na verdade, a cobertura midiática criminalizou tais manifestações e grupos reacionários bem-sucedidos só foram surgir depois: o MBL, por exemplo, só é fundado em novembro de 2014, quando as manifestações já tinham sido todas reprimidas e manifestantes sofriam processos criminais. Nas ruas, os bate-paus da CUT agridem física e verbalmente grupos independentes e anarquistas, usando-os de bodes expiatórios, já que é isto é mais fácil do que encarar os problemas reais. Breno Altman, militante histórico do PT, mostrando uma completa falta de honestidade, afirmou que os participantes da tática black bloc eram direitistas e “anarco”-capitalistas. Professora Marilena Chaui, outra militante histórica do PT, afirmou, em palestra para a academia da PM, que a mesma tática black bloc era “fascista”, pois teriam indivíduos como alvos e não almejavam construir uma nova forma de sociedade – uma viagem tão grande, que acredito que a professora deveria abrir uma agência de turismo. Maria do Rosário também criminalizou o black bloc. Dessa maneira, o PT criou uma mentalidade entre boa parte das pessoas que se identificam como esquerdistas de que quando o povo se lança em franca insurreição, independente da causa ser boa ou ruim, o resultado seria sempre desastroso, pois o povo seria burro demais para seguir em revolta sem ser manipulado por forças oportunistas.

Chauí

“Chaui afirmou ainda que as manifestações de junho em nada se assemelham aos protestos de maio de 1968, na França.” — “Black blocs” agem com inspiração fascista, diz filósofa a PMs, Correio 24horas, 26/08/2013

Maria do Rosário criminaliza black bloc.

Maria do Rosário criminaliza black bloc.

Praça Saens Pena sitiada na final da copa do mundo de 2014.

Praça Saens Pena sitiada na final da copa do mundo de 2014.

Esse período de revoltas de 2013-4 foi condenado tanto pela mídia conservadora como pelo maior partido de esquerda do país e o resultado disso é que as únicas narrativas que legitimavam a revolta popular foram abafadas pelo grande coro condenatório dos dois lados do espectro. Como resultado, só agora há um retorno tímido às ruas, que se não fosse pela chocante chacina do Jacarezinho e a notícia de que universidades federais terão de paralisar atividades, nem ocorreria, pois a esquerda partidária se concentra para as eleições do ano que vem. Mesmo que Lula se torne novamente presidente da república, isso nem de longe seria suficiente para espantar o bolsonarismo do Brasil, pois como toda forma de fascismo ou filofascismo, ele só existe porque possui base social. Após o massacre do Jacarezinho, a aprovação de Cláudio Castro nas redes sociais subiu 29%, o que mostra que parte da população é simpática ao extermínio de pretos e pobres como política de segurança. Se Jair Bolsonaro desaparecesse amanhã, ainda permaneceriam seus eleitores, que incluem a maior parte das forças policiais e armadas do país, mas não somente eles, como eleitores do Partido Novo; assim como muitos dos eleitores do PSDB, DEM, PMDB ou qualquer outro partido conservador; assim como até mesmo alguns eleitores do PT, uma vez que o partido jamais ameaçou a instituição da propriedade privada e seu governo promoveu UPPs e encarceramento em massa, logo não há nada ali que demova alguns de seus eleitores da sua simpatia por um estado policial. E o que não faltou em 2018 foram relatos de eleitores que declararam votar em Bolsonaro por não poderem votar em Lula, já que não estavam nem aí para alinhamento ideológico, apenas queriam um caudilho para chamar de seu. Esse movimento para a direita do espectro político publicamente aceitável foi tão acentuado, que o Brasil conseguiu parir a aberração chamada “Polícia Antifascismo”, um indicativo do quanto a esquerda brasileira de hoje sente a necessidade de aprovação e disciplina estatal sobre suas próprias ações.

Praça Saens Pena sitiada durante final da copa do mundo 2014.

Repressão na Praça Saens Pena, sitiada durante final da copa do mundo 2014.

Praça Saens Pena sitiada durante final da copa do mundo 2014.

Repressão na Praça Saens Pena, sitiada durante final da copa do mundo 2014.

Força Nacional defendendo a copa do mundo de 2014.

Força Nacional defendendo a copa do mundo de 2014.

 

 

A classe média se diverte com o caveirão durante a copa das confederações, RJ, 2013.

A classe média se diverte com o caveirão durante a copa das confederações, RJ, 2013.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A serpente não volta ao ovo depois que ele choca. A sociedade brasileira é fundamentalmente fascista, com instituições e base social fortes o suficiente para manter sua estrutura de exclusão e violência e isso não vai mudar através de uma eleição para presidente. Pelo contrário, tal conjuntura fará com que um governo de esquerda tenha de se adequar a ela por meio de políticas de conciliação ou arriscará ser deposto mais uma vez. No passado, quando me diziam que a função do PT no poder era amansar os movimentos sociais e que ele só foi deposto por fracassar nessa tarefa, eu tinha minhas dúvidas por achar que carecemos de evidência empírica para tal conclusão. Hoje, não tenho dúvidas disso. Mesmo fora do poder, o PT prefere que sua base (nem base alguma) bata de frente com o neofascismo até as próximas eleições. Então quando alguém lhe questionar se o PT tem alguma culpa pelo buraco em que estamos, responda sem sombra de dúvidas que SIM, pois ele promoveu na esquerda nacional a ideia de que o melhor a fazer é esperar até as eleições em vez de fomentar o poder popular por meio de articulações de base e levantes populares, e o resultado é o que estamos vivendo.

Bate-paus da CUT vão para ato procurar briga contra anarquistas na Av. Presidente Vargas, RJ, 2017

Bate-paus da CUT vão para ato procurar briga contra anarquistas na Av. Presidente Vargas, RJ, 15 de março de  2017

* Joel Pinheiro viralizou ao apresentar um argumento em favor da venda legalizada de órgãos. Diz ele que estava argumentando contra tal coisa, mas todos seus argumentos eram positivos. Ou seja, “Eu sou contra isso, mas vejam como seria bom!”. Além disso, seus argumentos eram absurdos, baseados numa supremacia da relação de oferta e procura que só existe na cabeça de adolescentes ancaps. São esses medíocres que as faculdades de economia têm formado?

** Ao contrário do que querem fazer crer oportunistas, ação direta não significa ação violenta nem mesmo é uma prática somente dos anarquistas. Greves, piquetes, ocupações de terra e edifícios e redes de apoio aos necessitados, quando feitas pela base, são formas de ação direta. Qualquer iniciativa social ou política realizada diretamente pelas bases da sociedade, sem intermediação ou aprovação do estado, é ação direta. MST e MTST também atuam por meio da ação direta, por exemplo.